Um ano após tragédia da Vale, recuperação do meio ambiente ainda é tarefa a ser cumprida.
Brasil
Publicado em 23/01/2020

Há um ano, o rompimento da barragem da Vale devastou plantações, áreas de vegetação e também cursos d’água, como o Ribeirão Ferro Carvão e o Rio Paraopeba, que teve seu uso suspenso após a tragédia. Passados 12 meses, a recuperação do meio ambiente ainda é tarefa a ser cumprida, assim como as obras para garantir o abastecimento de água na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Desde 25 de janeiro do ano passado, a agricultora Soraia Aparecida Campos, de 42 anos, utiliza somente água mineral para beber ou cozinhar. “Porque a gente não confia em análise nenhuma ainda”, justifica. A cada semana, a moradora do bairro Parque da Cachoeira, uma das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), recebe 60 litros de água. Para Soraia, a tragédia representou a perda de seu ganha-pão. No terreno onde plantava hortaliças, dezenas de corpos das 270 vítimas da tragédia foram encontrados. Antes, do fundo de casa, ela conseguia ver diversos tons de verde da plantação; hoje, no horizonte, avista um paredão cinza, que faz parte das obras para contenção do rejeito derramado pelo rompimento da barragem B1, localizada na mina do Córrego do Feijão, além de tendas usadas na maior operação de buscas do país.

“Isso aqui era o paraíso, a coisa mais linda que você imaginar. Tinha um córrego, aí tinha verde claro, verde escuro, a coisa mais linda do mundo porque aqui tudo era agricultura”, relembra.

Segundo a agricultora, todos os dias, um caminhão carregado de verduras saía de onde, atualmente, o marrom do rejeito se espalha. Para ela, quem vivia da terra na região está sem identidade. “Hoje nós estamos sem rumo. A agricultura em Brumadinho, para mim, não vejo aquele 'vou começar de novo'. Não vejo onde começar aqui”, afirma. O Ribeirão Ferro Carvão que passa pela região também perdeu o rumo com o mar de lama e, em vários trechos, corre por onde nunca havia passado antes do desastre. “Esse córrego está no habitat dele incorreto”, diz o comerciante Adilson Charlys Ramos de Souza, de 45 anos. Da barragem até o Rio Paraopeba, o Ferro Carvão tem cerca de 10 quilômetros. A Vale afirma que, ao longo de 12 meses, conseguiu reproduzir o curso de parte do ribeirão. O trecho tem cerca de 800 metros, de acordo com o gerente executivo de projetos de recuperação da área de Brumadinho, Rogério Galvão. “A gente estabeleceu este ponto, como um ponto inicial para a gente implantar um projeto nosso conceitual de recuperação ambiental. Nós chamamos de Marco Zero, justamente por ser um projeto piloto”, explica. Segundo ele, grande parte da lama despejada da barragem ficou depositada no Ferro Carvão, que deságua no Rio Paraopeba – até a tragédia, um dos responsáveis pelo abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte. A mineradora estima que cerca de 10 milhões de metros cúbicos de rejeito vazaram da barragem. De acordo com a Vale, já foi feita a remoção de mais de 1,3 milhão de metros cúbicos ao longo da área atingida. Segundo Galvão, a lama retirada está depositada em áreas provisórias. “No futuro, a gente vai estar depositando definitivamente dentro da cava de Feijão”, diz. Segundo ele, a retirada de rejeitos depende também dos trabalhos de buscas e a expectativa é que ela seja concluída em cinco anos. Mas ainda não há um prazo oficial. No Paraopeba, máquinas fazem a dragagem da lama. “A nossa intenção é que os dois primeiros quilômetros do Rio Paraopeba, que é onde realmente teve maior deposição de rejeito, sejam completamente dragados agora neste ano de 2020”, afirma.*G1 — Foto: Raquel Freitas/G1

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